sexta-feira, 23 de março de 2018

Arrendamento. As casas de Lisboa ainda são para portugueses?



Arrendamento. As casas de Lisboa ainda são para portugueses?

21 mar, 2018 - 19:04 • João Carlos Malta (texto), Joana Bourgard (fotos)

O preço na capital do m2 é o dobro do resto do país. Já não joga no campeonato nacional. É na liga europeia que compete. E por isso o desfasamento entre o poder de compra e os preços de arrendamento é cada vez maior. Em seis anos as rendas aumentaram 25%.

“Queria arrendar apartamento, mas é impossível. Já viste os preços? Vou mas é ficar onde estou”. Este é o tipo de conversa que, nos últimos anos, se apoderou dos jovens - e menos jovens, também - que procuram casa, sobretudo na Grande Lisboa e no Grande Porto.

A perceção tem também dados concretos: o Instituto Nacional de Estatística publicou, esta quarta-feira, um relatório que conclui que arrendar casas em Lisboa custa o dobro do resto do país e o Confidencial Imobiliário revela à Renascença que, nos últimos seis anos, o arrendamento subiu 25% na capital.

O líder da imobiliária Century 21 em Portugal, Ricardo Sousa, afirma que a realidade das rendas em Lisboa faz com que a cidade seja cada vez menos para os portugueses.

“Já é pouco acessível. Não sei se inevitável [que seja assim], mas o que claramente estamos a registar em Lisboa é um desfasamento enorme entre o poder de compra dos portugueses e a oferta disponível”, sinaliza.

“As famílias e os jovens estão a sair para os mercados mais periféricos, seja nos concelhos limítrofes, e há casos em que procuram até 70 ou 80 quilómetros de distância”, defende.

Famílias reféns

Este especialista do ramo imobiliário defende que o disparar de preços em Lisboa faz com que haja “famílias que estão reféns dentro das próprias casas”.

Reféns? Ricardo Sousa explica a imagem: “Se preciso de comprar uma casa maior porque tenho mais um filho e não cabemos no T2, os casais não vendem porque não conseguem comprar mais nada na cidade”, explica.

É também cada vez mais comum haver trabalhadores com 30 anos e mais, a terem de partilhar casa porque não conseguem pagar a renda sozinhos. “Por isso, vão para casas maiores e dividem o valor”, explica Ricardo.

De facto, segundo Ricardo Guimarães, um dos administradores do Confidencial Imobiliário, organismo que agrega informação estatística sobre este sector, diz que os dados revelam que em Lisboa os preços cresceram 25%, entre 2011 e o final do ano passado.

Mas se fizermos uma análise mais fina dos dados, percebemos que o crescimento é maior se o período se restringir ao pós-crise (2013-2017): o aumento das rendas cifrou-se em 46%.

Por outro lado, entre 2011 e 2013 (anos de intervenção da troika), os valores caíram 18% na capital. “Lisboa foi também o mercado mais penalizado na fase de descida, porque era o mercado que tinha as rendas mais elevadas e responde de forma muito direta”, explica Ricardo Guimarães.

No resto do país, a evolução no preço entre 2011 e 2017 foi de 0%, ou seja, as rendas estagnaram. Pode-se concluir, portanto, que Lisboa joga noutro campeonato.

Isto é sustentável?

Ricardo Guimarães defende que “nenhum mercado se pode desenvolver ignorando a realidade de compra do mercado doméstico. Um mercado apenas relacionado com o turismo tem um limite”.

Mas para já é o que parece estar a acontecer no terreno. E Ricardo Sousa, da Century 21, não antevê grandes mudanças.

“Aquilo que sentimos é que Lisboa é uma cidade da Europa e compete com outras cidades da Europa. Isso faz com que seja um mercado com dinâmicas próprias e que vai continuar a afastar-se do resto do país”.

O presidente da Associação Nacional de Proprietários, António Marques, diz que a disparidade entre Lisboa e o resto do país não o surpreende porque “Lisboa é Lisboa”. “O resto não é paisagem, porque o país é um todo e devemos respeitar, mas a realidade é o que é, e não podemos alterá-la”, começa por afirmar.

O representante dos proprietários defende ainda que os valores das rendas “são muito elevados” porque a “procura é muito alta”. “É uma lei do mercado básica”, conclui.

Marques assaca ao Estado a culpa da falta de soluções dos residentes de Lisboa e Porto. “O que falta é habitação publica para pessoas de baixos rendimentos, isso concordo que faz falta”.

Mas atualmente não são também as pessoas de classe média a terem problemas com as rendas? “O que se passa não é as rendas estarem altas, o que se passa é os salários estarem baixos. Temos é de atacar os problemas por aí”, remata o presidente da Associação Nacional de Proprietários, António Marques.

Volatilidade explicada

Ricardo Sousa defende que uma das características do mercado nacional que explica este fenómeno é ser formado “por uma multiplicidade de pequenos proprietários e pequenos investidores” que têm “um, dois ou três apartamentos”.

“Isso mexe com o risco, se tenho um ou dois apartamentos o risco associado é elevado e isso reflete-se no preço. O facto de não ter economias de escala para gerir o património com mais eficiência tem consequências no preço”, argumenta.

Em Lisboa, há ainda “muita pouca oferta e muita procura”, o que faz com que o mercado reaja depressa na atualização do valor de renda quando os imóveis chegam ao mercado.

“Isso explica as oscilações de preço e algum comportamento irracional”, defende o administrador da Century 21.

Porto. Esta cidade não é para pobres, nem para remediados

A Associação de Inquilinos do Porto defende que a realidade do Porto não é muito diferente da de Lisboa.

“Os preços estão inacessíveis para um casal médio que a ganhar 700 ou 800 euros dificilmente consegue arrendar. Não consegue por menos de 600 euros que é metade do rendimento do casal”, explica o presidente da mesa da Assembleia Geral Associação de Inquilinos do Porto, José Martins.

Tal como o presidente da Associação Nacional de Proprietários, também o representante dos inquilinos pede ao Estado uma intervenção diferente para facultar habitação em condições acessíveis.

“Somos o país da Europa com menos habitação social. Temos 10%, contra 25% dos países nórdicos, onde o nível de vida é superior ao nosso”, sintetiza.

José Martins defende ainda que já não estamos na fase em que se possa discutir se os portugueses têm ou não dificuldade em viver nas grandes cidades.

“Não corremos o risco. É uma realidade. Os centros são para portugueses de classe alta, já nem sequer é para os de classe média, a não ser os que têm contratos”, aponta.

“Esta fúria turística não é um mal, mas não pode ser é um rolo triturador que leva tudo à frente”, remata.

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