quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Somos um país péssimo onde todos são, afinal, excelentes. Polémica: Investigador rico, professor pobre.


Somos um país péssimo onde todos são, afinal, excelentes
José Manuel Fernandes / 13-8-2014 / OBSERVADOR

Não queremos submeter-nos a nenhuma avaliação, mas condenamos tudo e todos sem sequer ouvirmos os seus argumentos. Assim criamos um igualitarismo destrutivo que compromete o debate público plural.

Portugal é um país paradoxal. Sempre que falamos dos responsáveis, dos que tomam decisões, eles são invariavelmente incompetentes, obtusos e outras coisas piores. Sempre que falamos de nós próprios, somos invariavelmente esforçados, prescientes e mal compreendidos pelos nossos chefes.

Não avaliamos decisões, não pesamos prós e contras, não discutimos alternativas: preferimos fazer processos de intenção, quando não alinhamos directamente em teorias da conspiração. Da mesma forma detestamos ser avaliados – achamos sempre que isso é uma provocação, senão uma forma de nos prejudicar.

Alguns episódios recentes revelaram estas tendências em todo o seu esplendor – e também em todo o seu supremo ridículo.

Take 1: Avaliação

Basta pensar no que se passou com a avaliação dos professores. Tudo se disse. Que não era necessária porque os professores tinham sido avaliados nas universidades. Que só servia para justificar despedimentos. Que o seu conteúdo era tão básico que representava uma humilhação. Que era apenas uma obsessão do ministro. Depois, quando vieram os resultados, e se provou que, afinal, a avaliação tinha sido cruel para muitos candidatos a professores, desvalorizou-se a importância dos erros e, quando isso se mostrou insuficiente, passou-se a atacar a credibilidade do avaliador.

O que aconteceu é fácil de compreender: nenhum professor, sobretudo nenhum sindicato dos professores, é capaz de assumir que há muitos, demasiados, professores que não são bons, que são medianos, medíocres, que há até maus professores. Aquilo que qualquer aluno sabe, que qualquer pai sabe, que qualquer um de nós sabe porque já teve professores – isto é, que há muitos professores que deixam muito a desejar, para ser piedoso neste meu juízo – é uma realidade que os próprios nunca assumem. Acham sempre que é um ataque a toda a classe.

Basta ver o que o que escreveu Alexandre Homem Cristo e o tipo de reacções que encheu as caixas de comentários do Observador. Todos sabemos intimamente que a ferida existe, mas cai o Carmo e a Trindade quando alguém se atreve a colocar o dedo na ferida.

Take 2: Mais avaliação

Um outro exemplo de desproporção foram as reacções à avaliação dos centros e unidades de investigação. Não vou aqui discutir o tema, que é complexo e nem sequer está fechado, pois decorre ainda o prazo para os recursos. Vou apenas chamar a atenção para a desproporção entre o que se disse e o que realmente aconteceu.

Primeiro os dados objectivos. Metade dos centros de investigação terminaram a primeira fase com nota igual ou superior a 15 (num máximo de 20). Nesses centros trabalham dois terços do total dos investigadores. Dito de outra forma: metade dos centros e dois terços dos investigadores tiveram, para já, uma classificação superior a “bom”, de acordo com os critérios estabelecidos neste processo. Isto num país que, mesmo tendo progredido nos últimos anos, não está na vanguarda da produção mundial de ciência. Pelo contrário. De facto, existiam em 2012 em Portugal 9,2 investigadores por cada 1000 activos, o que nos colocava em quinto lugar na Europa; ao mesmo tempo, de acordo com o indicador compósito do Eurostat para a excelência em ciência e tecnologia, Portugal estava apenas em 19º lugar. Ou seja, muitos investigadores, pouca produtividade. Qualidade insuficiente? Mas como se, de todos esses investigadores, dois terços estão em centros avaliados como “muito bons”.

Olhando para estes dados talvez fosse de ficar chocado com a liberalidade da avaliação – mas não: ficou-se chocado por metade dos centros não terem atingido o patamar de “muito bom”, pois isso iria “matá-los”. Melhor: estava-se a destruir toda a investigação científica em Portugal.

Num país como o nosso, a preocupação devia ser concentrar recursos nos centros que melhor trabalham. Mas num país que é o nosso a reivindicação é continuar a dispersar os recursos por centros bons e por centros medianos, umas migalhinhas por todos.

Não duvido que no processo de avaliação tenham existido erros. Há sempre erros. Tem de haver sempre possibilidade de os corrigir. Agora isso é muito diferente de querer aproveitar eventuais erros para concluir que o objectivo é acabar com a ciência em Portugal e que, por isso, é preciso acabar com a avaliação.

À boca pequena quem quer que circule pelos corredores das universidades e centros de investigação sabe o que neles se comenta sobre a qualidade, ou falta dela, do que se produz em muita e boa parte. Mas é só à boca pequena e quando se fala dos outros. Primeiro, em público, todos ou quase todos se calam. Depois, em momentos de avaliação, são ferozes a defender o seu nicho e, se necessário, igualitários na recusa de que alguém, com outros critérios, mais independentes, olhe para o que estão a fazer e produzir. E diga que não são tão bons como julgam que são.

Take 3: Presciência

Ao mesmo tempo que se suporta mal a avaliação e a crítica, está-se sempre pronto a condenar antes de julgar, muito menos de avaliar. É por isso que não deixo de estar surpreendido com a forma como se tem falado da condução pelo Banco de Portugal – e em especial pelo seu governador, Carlos Costa – da crise do BES.

Há uma coisa que compreendo: uma parte dos ataques tem como única motivação o banco e o seu governador serem acusados de serem demasiado próximos das políticas do governo. Há blogues, como o Abrupto, onde isso se escreve preto no branco, o que tem a vantagem de tornar as coisas claras, transparentes.

Bem diferentes são as sentenças de todos quantos nunca deram o mais pequeno sinal de estarem inquietos com a situação do GES e do BES – pelo contrário, bem pelo contrário – e agora exigem que tudo tivesse sido descoberto há anos.

Mais uma vez trata-se de uma forma de debater que obscurece os argumentos. Senão vejamos: há muita coisa em todo este processo que deverá ser esclarecida, e espero que isso aconteça, mas se quisermos avaliar a decisão de criação de banco bom e um banco mau temos de avaliá-la enquanto tal, pesando os seus prós e contras por comparação com as alternativas (deixar o banco falir como sucedeu com o Lehman Brothers, nacionalizá-lo como se fez com o BPN, ou outra que alguém proponha). Em vez disso, parte-se do princípio que só razões esconsas poderiam ter impedido o banco e o governador de ver o que todos estavam a ver – esses todos que, curiosamente, estavam calados.

Tenho dúvidas sobre a forma como o Banco de Portugal actuou, mas isso não me impede de, em primeiro lugar, apreciar a solução pelo seu valor e, depois, reconhecer que houve uma enorme evolução, na boa direcção, do nível de qualidade da supervisão bancária. E que esta vai continuar a ser cada vez mais exigente.

Estas formas de olhar para a realidade reduzem o nível do debate público à subtileza das sentenças próprias de uma viagem de táxi. Muitas certezas, nenhuma fundamentação, ainda menos reflexão. E traduzem-se numa total incapacidade para mudar ou evoluir. Primeiro, porque nós somos bons e isso não se discute. Depois, porque os outros, sejam quais forem os outros, são indiferentemente maus, e isso não se contesta.

Talvez todos se se sintam melhor assim com os seus egos. Eu não.




PROFESSORES
Polémica: Investigador rico, professor pobre
Paulo Guinote
13/8/2014, 18:45 / OBSERVADOR

O que aconteceu é que Alexandre Homem Cristo decidiu achincalhar directamente todos os professores com base numa amostra que não permite essa generalização.

Há alguns dias, em texto de opinião publicado no vosso espaço com o título “Temos Maus Professores”, Alexandre Homem Cristo (AHC), que habitualmente se deixa apresentar como investigador em Políticas Educativas, desenvolveu uma teorização a partir dos resultados da prova de avaliação de capacidade e competências aplicada aos candidatos a professores com menos de cinco anos de exercício da docência.

Vou deixar de parte a polémica em torno da prova, com os habituais aproveitamentos políticos e acrimónias pessoais. Vou mesmo deixar de parte muitas outras questões relevantes sobre a lógica, méritos e demais circunstâncias da dita prova.

Vou concentrar-me apenas na dita teorização estabelecida por AHC no referido texto a partir da constatação da existência de um nível considerado elevado de erros ortográficos nas provas classificadas.

Segundo AHC esse nível é inaceitável em quem tem como missão ensinar os alunos com qualidade, algo que não vou contestar pois não tenho referenciais nacionais ou internacionais a esse respeito. Dou esse argumento de barato ao articulista-investigador que, por certo, conhecerá tais referenciais em profundidade.

Segundo AHC esse nível de erros explicar-se-á pela facilidade de acesso aos cursos de formação de professores, que terão médias de ingresso baixas, sendo muito frequentados de acordo com estatísticas do ano de 2010-11 por alunos que recorrem a bolsas da acção social escolar. Seguindo uma lógica imparável e que ao articulista-investigador terá parecido imaculada, considera-se que “quem hoje vai para professor não são os bons alunos. Por outro lado, quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social”.

Confessemos que esta forma de desenvolver um preconceito com recurso a uma lógica da ordem dos tubérculos é notável e culmina na conclusão enunciada desde o título “Temos maus professores”.

Ou seja, temos maus professores porque aqueles que fizeram a prova destinada ao acesso à docência deram erros ortográficos.

Ou seja, lança-se a lama para cima de uma classe profissional, com base no desempenho de uma amostra correspondente a um grupo de candidatos a essa profissão que, na sua esmagadora maioria nem sequer está a dar aulas, sendo que essa amostra também é em termos estatísticos muito pouco relevante em relação aos que dão efectivamente aulas e irrelevante em relação aos professores integrados na carreira.

AHC até poderia, em parceria com o IAVE, elaborar uma prova que examinasse os professores em exercício e encontrasse milhentos erros em 99,9% dos professores e nesse caso poderia fazer um texto com aquele título.

Mas não foi isso que aconteceu.

O que aconteceu é que AHC decidiu achincalhar directamente todos os professores – e não vale a pena vir agora dizer que alguém lhe mudou o título à crónica – com base numa amostra que não permite essa generalização.

A realidade é esta: os factos que AHC alinhava não lhe permitem a conclusão anunciada em parangonas e com a chancela do próprio director do Observador na sua página pessoal de uma conhecida rede social como sendo “o dedo na ferida”. Qual ferida?

Para além disso, AHC decidiu dar largas ao preconceito sócio-profissional que afecta muitos licenciados, mestres e doutores em “Ciências” que se consideram próprias de estatutos socio-económicos mais altos e que frequentaram instituições que eles consideram imunes a uma espécie de amálgama indistinta de filhos de proletários, ao que parece hereditariamente determinados a serem maus alunos e, por consequência, só capazes de, como regra, seguirem cursos superiores de segunda categoria e a tornarem-se maus professores.

Isto seria admissível em qualquer publicista de estirpe duvidosa, em qualquer indivíduo de escasso conhecimento académico, triste inteligência e com valores cívicos em razoável défice.

Num “investigador em Políticas Educativas”, mesmo sem qualquer formação específica na área, é sintomático da enorme necessidade em aprofundar a sua formação.


Professor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação

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