terça-feira, 22 de julho de 2014

E SE A PRÓXIMA CRISE ECONÓMICA JÁ ESTIVER A CAMINHO ?


E SE A PRÓXIMA CRISE ECONÓMICA JÁ ESTIVER A CAMINHO ?
Os sinais de alerta começam a amontoar-se nos mercados globais e os especialistas aconselham cautela nos investimentos.
Marta Marques Silva / 21-7-2014 / Diário Económico

Os sinais de alerta estão a soar nos mercados internacionais. No final de Junho, o banco central dos bancos centrais, o Bank of International Settlements (BIS), afirmava que a euforia nos mercados financeiros não encontra suporte na realidade económica, e exultou os bancos centrais a reverter políticas monetárias que continuam a alimentar "as subidas insustentáveis nos mercados financeiros". Referia-se não só ao excesso de liquidez injectada, mas principalmente às taxas de juro que permanecem em mínimos históricos. Mas o BIS não foi o único a pronunciar-se neste sentido nas últimas semanas. No seu último relatório semestral, publicado a 14 de Julho, o World Gold Council, o organismo que representa a indústria mundial do ouro, alertava precisamente para o facto de "tantos dólares a perseguirem tão poucos produtos com elevados retornos pode criar o risco de bolhas financeiras". Uma dinâmica que, dizem, "poderá vir a provar-se insustentável".
Esta semana, o fundo de pensões do maior banco dinamarquês, o Danske Bank, colocava de parte 5% do capital para investir em activos mais ligados "à economia real", menos expostos aos mercados financeiros que, segundo o banco, poderão sofrer uma forte correcção. "É difícil enumerar a quantidade de negócios exóticos que nos têm proposto sem quase nenhuma extra ‘yield' (face a activos seguros]. Ninguém os teria sugerido há dois ou três anos", explicava o CFO do banco, Aarup-Andersen. "No momento em que as ‘yields' desaparecem de uma classe de activos as pessoas simplesmente seguem para a seguinte. É difícil encontrar ‘yield' e não queremos estar cegos perseguindo ‘yield' ao longo da curva". E mesmo Janet Yellen, que recusou recentemente a formação de uma bolha nos mercados accionistas norte-americanos, reconhece a existência de alguns excessos. Num relatório enviado esta semana ao Congresso, a presidente da Reserva Federal dos EUA escreve que: "As avaliações das empresas mais pequenas, bem como das empresas de redes sociais e do sector da biotecnologia parecem excessivas, com rácios preços/lucros estimados bem acima da média histórica".
A Cynk Technology é um exemplo paradigmático. Na semana passada o regulador do mercado norte-americano foi forçado a suspender a negociação das acções, depois de terem disparado 3.600%, de 10 cêntimos para 21 dólares no espaço de um mês. Uma avaliação de seis mil milhões de dólares, apesar desta empresa de redes sociais só ter um funcionário e não ter receitas. A Cynk está longe de ser um exemplo isolado. Nos EUA mas também em alguns mercados europeus, os principais índices têm vindo a renovar máximos históricos. O S&P 500 está 27% acima do pico registado em Outubro de 2007 e, desde os mínimos de 2009, já quase triplicou de valor. Um rally que dura há cinco anos o que é, segundo dados reunidos pela Bloomberg, cerca de um ano mais longo do que a média histórica. Além disso, a volatilidade, medida pelo índice VIX, está no valor mais baixo de sempre. Muitos analistas, incluindo o BIS, têm alertado para este factor, que sugere uma atitude complacente dos investidores em relação ao risco.

Uma atitude que está longe de cingir-se aos mercados accionistas.

E se a próxima bolha estiver na dívida das empresas?

Nesta busca incessante por retornos ('yield') a dívida ‘high yield' tem sido o grande "êxito de bilheteira". Trata-se da dívida emitida por empresas com qualidade creditícia inferior, ou seja, a dívida das empresas ‘junk' e que, por isso, oferece retornos superiores aos investidores. Quanto maior o risco, maior o juro exigido. Essa é a teoria. Não admira portanto que, num ambiente de taxas de juro próximas de zero, a procura por estes títulos tenha disparado. 2014 prepara-se para bater todos os recordes em termos de montantes emitidos, com a consequente queda nos juros exigidos, em resultado precisamente deste excesso de procura. "Os ‘spreads' das obrigações corporativas, bem como os indicadores de volatilidade em algumas classes de activos, caíram para níveis mínimos, o que sugere que alguns investidores podem estar a subponderar o potencial de perdas", afirmou Yellen perante o Congresso. Explicando que: "Os padrões de crédito para as empresas com menores ‘ratings' foram relaxados de forma significativa, em resultado da procura por ‘yield' num contexto de taxas de juro persistentemente baixas".

Numa nota enviada aos investidores esta semana, intitulada ‘Bubbles Detector', Giordano Lombardo, o ‘Chief Investment Officer' da Pionneer Investments, escrevia o seguinte: "A compressão de ‘spreads' continua ao longo de todo o espectro de ‘ratings'. As taxas de ‘default' corporativo estão artificialmente baixas: empresas que no passado se teriam debatido para aceder aos mercados de crédito estão a conseguir levantar dinheiro para se refinanciarem. (...) Entretanto, a liquidez no mercado começa a desaparecer". Para concluir que: "Portanto, na nossa perspectiva, os mercados de crédito precisam de ser manuseados com muita cautela".

E se, em 2007/2008, muitos apontaram o dedo às agências de ‘rating' pelo facto das notações não reflectirem adequadamente o nível de risco da empresa, hoje simplesmente ninguém parece dar atenção às suas avaliações. Segundo a revista ‘Fortune', actualmente o ‘rating' mais comum das empresas norte-americanas é de BBB+, um nível acima de ‘junk'.

Arturo Bris, actual director do World Competitiveness Center e professor do IMD na Suíça, previu recentemente o início da próxima crise global para Abril de 2015, avançando oito possíveis possíveis cenários. Num deles escreve: "As empresas têm demasiada dívida e a nova norma é ter um ‘rating' BBB. (...) Se os ‘ratings' forem um indicador de falência, então vão existir falências de forma transversal. Se as taxas de juro aumentarem 2%, metade do sector empresarial vai desaparecer".

E nos mercados de dívida soberana , a tendência é idêntica. Este mês, o Quénia emitiu 1,5 mil milhões de dólares - um novo recorde para um Estado africano - com uma taxa de juro de 6,875%.


Para o responsável pela estratégia de investimentos da Pioneer: "Mais do que nunca, é altura de ter o GPS ligado".

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