domingo, 8 de setembro de 2013

O Instituto de Cinema e Audiovisual remeteu para as Finanças e a Inspeção-Geral das Actividades Culturais uma denúncia onde constam supostas ilegalidades sobre o Fantasporto e a cooperativa Cinema Novo. Mário Dorminsky desmente ilegalidades no Fantasporto.

O Instituto de Cinema e Audiovisual remeteu para as Finanças e a Inspeção-Geral das Actividades Culturais uma denúncia onde constam supostas ilegalidades sobre o Fantasporto e a cooperativa Cinema Novo. A VISÃO seguiu o rasto das suspeitas. Descobriu uma realidade paralela, onde o certame de maior prestígio internacional do País se assemelha a um filme de série B, mas com guião de luxo da autoria de Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira. Tenha medo, tenha muito medo...
Miguel Carvalho (texto publicado na VISÃO 1070, de 5 de setembro)

A noite é 4 de março de 2000. O Fantasporto está no auge e o Coliseu prepara festa de arromba para assinalar o fim da edição desse ano. O Baile dos Vampiros espera uma turba de cinco mil "morcegos", "dráculas" e outras espécies noturnas para dançar ao som dos DJ´s Vibe e Mário Roque. Ambiente fantasmagórico e cibernético, onde até Mário Dorminsky, então diretor do Festival Internacional de Cinema do Porto, prometera usar capa vampiresca e afiar o dente. "Quando as portas abriram, já estávamos a ganhar dinheiro!", recorda Rui Pinto Garcia, antigo colaborador da Cinema Novo, a casa onde nasceu o Fantas. Ele angariou os patrocínios que permitiram "a festa veneziana e carnavalesca". Os apoios financeiros vieram de marcas de cerveja, automóveis e telemóveis, "mas também do Metro do Porto, que ainda nem andava, e até de uma empresa de papel higiénico, que entregou cerca de dois mil euros, 400 contos na altura. Um sucesso!". A bilheteira foi dividida entre um empresário da noite e o Fantas. "Aquilo deu uns 150 mil euros de lucro, no mínimo. E sim, é verdade que depois fui levar o dinheiro em sacos plásticos a casa do Mário", confirma Rui Pinto Garcia que, em 2002, decidiu afastar-se do Fantas, na sequência de vicissitudes várias. "Fui membro do conselho fiscal e uma vez o relatório e contas apareceu aprovado sem eu ver. Comecei a chatear-me com estas coisas. Na prática, aquilo sempre foi uma holding do Mário e da Beatriz Pacheco Pereira. A cara do festival é ele, mas ela sempre se comportou como o Iznogoud, a personagem da BD que quer ser califa no lugar do califa", assegura Rui. "O Fantas sempre deu dinheiro para tudo e mais alguma coisa. É o quintal deles".
Nos idos de março...
Treze anos depois, e aqui não cabem superstições, o pesadelo instalou-se. Em março, a direção da cooperativa comunicou o despedimento coletivo de seis dos seus oito trabalhadores, alegando um "agravamento gradual" da situação financeira. "Fizemos isto para evitar o pior, uma insolvência", admitiu Dorminsky ao Público. Quedas nos negócios paralelos, nas vendas, nos subsídios, nos patrocínios e na bilheteira do Fantas, a par da "carga salarial existente", determinaram, segundo a direção, o afastamento de funcionários que, em conjunto, representavam uma despesa mensal de 6115, 93 euros, ainda assim inferior à soma dos valores auferidos por Beatriz, atual diretora (4500 euros/mês), e pela secretária (2040 euros/mês). Dorminsky, vereador da Cultura na Câmara de Gaia, tem o contrato suspenso. Ainda assim, Mário nunca se habitou a separar as águas: em 2009, por exemplo, ter-se-á deslocado a Vigo no carro da autarquia para participar na apresentação do Fantasporto galego, no Instituto Camões, como "diretor do festival".
Manuela Pacheco Pereira, irmã da diretora, viu ser-lhe recusado o subsídio de desemprego pela Segurança Social por manter funções nos órgãos estatutários e terá sido reintegrada. João Pacheco Pereira, filho do casal Dorminsky, recebe o subsídio de desemprego. Casado com Mariana Valença, sócia-gerente da Prumma, empresa de consultoria e design que presta serviços à Cinema Novo, o filho de Mário e Beatriz, designer e autor de cartazes do Fantas e outras publicações da Cinema Novo, auferia 1750 euros mensais. A Prumma, que João fundou, ocupa as instalações da cooperativa, sem encargos. Os corpos gerentes da Cinema Novo, de resto, são dominados pelo clã Dorminsky: seis dos nove membros são familiares.
Na assembleia geral da cooperativa, realizada a 25 de março e gravada através de um smartphone, foram aprovados os despedimentos e um pedido de empréstimo bancário à Caixa Agrícola, dando como garantia, "caso seja necessário", a hipoteca do antigo Cinema-Jardim, moradia que a Cinema Novo tenta vender há anos por um valor próximo dos 500 mil euros, sem sucesso. A ata desta reunião poderá, porém, estar ferida de ilegalidade, segundo alguns dos presentes: "Nem todos os que participaram assinaram e nem todos os que assinaram lá estiveram", alegam. O sócio Pedro Garcia Rosado, escritor e tradutor, condenado no "caso Moderna" a uma pena de prisão por corrupção passiva, delegou o voto na presidente da direção.
Em maio, entretanto, já um outro "thriller" corria no Instituto do Cinema e Audiovisual. Nesse mês, o ICA recebeu uma denúncia anónima na qual eram reportadas "eventuais ilegalidades relativas ao funcionamento e organização do Fantasporto", confirmou o Instituto à VISÃO. No documento, o Fantas é suspeito de fugir ao IVA nas vendas de produtos (livros e dvd´s), dos bilhetes bónus e dos cartões de participante, dos quais não emitirá faturas. É ainda suspeito de falsificar o número de espetadores com recurso a centenas de bilhetes a custo zero para fazer número, em prejuízo de outros festivais concorrentes aos apoios do instituto. As sessões da manhã, alega-se, são creditadas com lotação esgotada quando terão, no máximo, quinze espetadores. É ainda feita referência à duplicação de faturas enviadas para os organismos públicos que apoiam o festival e a contas bancárias paralelas "onde é depositado o dinheiro vivo". A denúncia remetida ao ICA engloba ainda supostas irregularidades nas atas das assembleias gerais e referências à utilização de verbas e património da cooperativa em benefício particular do "casal Dorminsky" e do filho João. 
O ICA considerou que as alegadas "anomalias" ultrapassavam as suas competências de fiscalização, tendo enviado a denúncia para esse efeito à Inspeção-Geral das Actividades Culturais e Autoridade Tributária e Aduaneira (Finanças), informando o secretário de Estado da Cultura das diligências.
Mas as más notícias para o Fantas teriam sequela: em junho, o ICA comunicou à Cinema Novo a redução para metade do subsídio de 100 mil euros à 34ª edição do festival, a realizar no próximo ano. A cooperativa contestou. "Não foi apresentada qualquer resposta por parte do Festival Fantasporto no prazo determinado para o efeito", comunicou o ICA, em julho, aos responsáveis do evento. Como se chegou aqui?
Mário e Beatriz optaram por não responder às perguntas da VISÃO (ver caixa). "Não sou dos corpos gerentes e, para já, não faço declarações", escusou-se António Reis, também diretor do festival e sócio da cooperativa.
La dolce vita
Entre finais de 1978 e princípios de 1979, na mesma época em que deram largas à utopia cinéfila e fundaram a cooperativa Cinema Novo, o tenor Dorminsky e a soprano Beatriz dos tempos do Círculo Portuense de Ópera, onde o timbre da paixão soou, ficariam conhecidos no País por razões mais prosaicas. Sem ambos saberem, amigos enviaram para o concurso Ecrã Mágico, da RTP, os cupões para a candidatura do parzinho. Durante dez semanas, e respondendo às mais diversas perguntas sobre a sétima arte, Mário e Beatriz arrecadaram frigoríficos, máquinas de lavar, lençóis, chocolates e outros prémios, tendo o "casal de professores do Porto" merecido parangonas nas revistas e jornais.
Autêntica pedrada no charco da cena cultural portuense, o Fantasporto abriria portas no início da década de 80, sob a égide do fantástico, do terror e do sangue a escorrer. Os lamentos começaram logo em 1982: "Se o dinheiro não chegar enforcamo-nos na Cordoaria", dirão Mário e Beatriz ao Sete, a propósito da falta de apoios, fiéis à simbologia do festival, onde rolavam cabeças a cada bobine.
À medida que o Fantas se consolida, se internacionaliza e ganha estatuto de culto, os queixumes vão manter-se e até ampliar-se. "Os minguados apoios financeiros", a falta de "metal sonante" e os "pedidos de esmola" são referidos a cada edição, sempre sob a ameaça de não se realizar a seguinte. Exceção maior, talvez, o momento em que o ex-secretário de Estado da Cultura Santana Lopes, assobiado no certame em pleno cavaquismo, decidiu logo ali duplicar os apoios do Estado ao festival, esquecendo-se, na emoção do momento, que já o havia feito na edição anterior.
Com os anos, o Fantas "revela" nomes como Cronenberg, Carpenter ou Almodóvar. Atrai o ator Ben "Ghandi" Kingsley, os realizadores Wim Wenders e Guillermo del Toro ao Porto, mas também uma Rosanna Arquette alcoolizada e decadente e uma Mulher de Vermelho barata e esquecida, que os convites tinham manga curta. David Lynch, que Dorminsky várias vezes referiu como tendo estado presente no Fantas, nem em holograma foi visto por cá. Mas o festival merece referências elogiosas na revista Variety e o diretor é solicitado para júris e festivais. Por cá, continuará a dizer que o centralismo mata a ousadia portuense, que "a Transilvânia está no Terreiro do Paço" e o festival, parco em apoios estatais e privados, opera "o milagre da multiplicação dos pães".
Enquanto o Fantas se institucionaliza, o casal muda de vida. Casas são quatro, de acordo com a declaração sobre o património e rendimento dos titulares de cargos políticos entregue por Dorminsky no Tribunal Constitucional, em 2009. A mais recente, um T4 com terraço virado ao mar, é em Gaia. Há ainda uma outra em Esmoriz, com piscina. O apartamento na marina de Vilamoura, onde Mário e Beatriz chegaram a ter Herman José por vizinho, foi vendido há anos.
Segundo antigos e atuais membros da Cinema Novo, o parque automóvel alegadamente pago pela cooperativa - no qual se incluem um Mitsubishi Pajero, um Toyota Aygo e um Nissan, todos com alguns anos - é usado quase em exclusividade por Dorminsky, Beatriz e o filho João. Na declaração ao TC, Mário assume o Mitsubishi como seu. As mesmas fontes asseguram que o dinheiro da Cinema Novo também serviu para pagar o livro País em Chamas, de Dorminsky, com prefácio do presidente da Câmara de Gaia, e empréstimos e obras nas residências do clã, além das despesas de água, luz e telefones. Segundo fontes da Cinema Novo, na contabilidade da aparecem ainda faturas de duas agências de detetives.
Ao longo dos anos, e fora dos períodos mais atarefados do Fantas, Dorminsky, Beatriz e, por vezes, o filho e a nora, viajaram a expensas da cooperativa. A Cinema Novo pagou ao casal, entre outras, deslocações e estadias em Roma, Londres e até um cruzeiro no Mediterrâneo e Terra Santa a rondar os 1700 euros, sem aparente relação com a atividade do festival.
Justificadas no âmbito de promoção do Fantas eram as viagens anuais a Cannes, onde vários elementos da Cinema Novo se deslocaram até 2010, data da última presença. O grosso da equipa partilhava apartamentos ou águas furtadas de meter medo ao susto longe do bulício reluzente do certame, mas nem por isso a preços módicos. Mário e Beatriz, porém, tinham os seus privilégios: na quinzena mais importante do cinema europeu nunca prescindiam do quarto com varanda no glamoroso Hotel Splendid, virado para a marina e os iates das estrelas. "Muitos, e todos um espanto. Quem nunca deu uma volta pelo cais de Cannes não sabe o que significa ser verdadeiramente rico. Raiva, só raiva", escreveu Beatriz, numa das suas crónicas. A diária do Splendid no período do festival não é para todos: oscila entre 440 e 550 euros.
Nesses dias, e segundo testemunhos de vários membros da comitiva, Dorminsky e Beatriz viam poucos filmes, mas iam às receções. Viam e eram vistos. No resto do tempo, Mário dava corda ao cartão de crédito da cooperativa em jantares, compras e visitas ao mercado de antiguidades. "No final, todos estão mortos por regressar a casa. Cannes é um pesadelo de trabalho, um horror de "stress" envolto no papel brilhante do "glamour" das estrelas", desabafou, porém, Beatriz, num dos seus livros.
O cartão de crédito atribuído a Dorminsky sempre fez furor. E deixou em sobressaltos secretárias da Cinema Novo na hora de tentar justificar despesas. Segundo relatos de antigos e atuais membros da cooperativa à VISÃO, os gastos do fundador e diretor com o cartão chegaram a atingir mais de cinco mil euros por mês. Daí nasceram as duas "cavernas do Ali Babá", a forma como os funcionários designavam, por graça, os escritórios atulhados de milhares de dvd´s, blueray´s, cassetes, cd´s e livros, alguns comprados em duplicado e triplicado, dos quais só Dorminsky tem a chave. "Por vezes, nem ele disfarçava o embaraço. Chegavam tantas caixas da Amazon por dia que nem o conseguíamos ver sentado à secretária", relata quem viveu a Cinema Novo por dentro. Oficialmente, a cooperativa - que beneficia, por lei, de isenções fiscais - dispõe de um "arquivo" de cinco mil cartazes de cinema, "uma biblioteca ampla" e uma "videoteca", espólio onde é difícil distinguir o que pertence à casa e a Dorminsky. "Onde estão as dezenas de serigrafias de Bill Plympton que o Mário comprou num cruzeiro?", perguntam, a título de exemplo, antigos funcionários, que sempre se habituaram a ver obras de arte, equipamentos informáticos, de áudio e som, dvd´s e livros pagos pela cooperativa passarem para a residência do casal na Rua Aníbal Cunha, mesmo defronte das instalações da Cinema Novo. Não se pense, porém, que Mário olhava para o umbigo: ex-funcionários recordam, com saudade, os tempos em que o "chefe" comprava computadores portáteis para todos e dava subsídio e mês de férias extra após cada edição do Fantas.
Apocalipse now
Aos 80 anos, Leandro Ferreira adverte: "A minha memória já não é a melhor". Mas o antigo fundador e contabilista da cooperativa Cinema Novo ainda recorda os motivos pelos quais, há uns bons anos, se demitiu. "Houve uma daquelas fiscalizações de rotina das Finanças, mas o Mário, que era o maestro e o senhor absoluto daquilo, não me deixava ter acesso às contas bancárias nem a qualquer documento das mesmas. Como ele, por hábito, lidava mal com as minhas observações, vim-me embora", recorda, aludindo, contudo, ao facto da cooperativa "ter funcionado bem durante anos, sem dever nada a ninguém". No caso do Fantasporto, "o dinheiro deu para tudo". O erro, assume Leandro Ferreira, "foi nunca se ter posto de lado uma verba para prevenir as tempestades".
O ano de 2005, data em que o Fantas celebrou 25 anos, marcaria uma viragem na vida da Cinema Novo e do festival, para o bem e para o mal. Nesse ano, Dorminsky celebrou o cinquentenário. O Grande Hotel do Porto foi pequeno para a centena de pessoas, entre os quais políticos de todos os quadrantes, que lhe cantaram os parabéns. Dorminsky seria, nessa noite, desafiado a
vestir uma t-shirt com os dizeres I´m a lesbian in a man´s body.
Ex-maoísta da FEC (ML), Mário distribuiu na ocasião um porta-chaves com o lema Ousar Viver, Ousar Fazer, trazendo à memória reminiscências do slogan Ousar Lutar, Ousar Vencer, adotado pelo MRPP. Confusões ideológicas e de género à parte, a fatura do jantar, 2900 euros, foi paga pela Cinema Novo.
Em setembro daquele ano, Mário tinha já garantido o cargo de vereador da Cultura da Câmara de Gaia, o que acontecerá dali a um mês quando Luís Filipe Menezes iniciar o terceiro mandato. Nessa altura, dispensará os serviços da advogada a quem recorrera para forçar o autarca do PSD a cumprir um protocolo celebrado entre a autarquia e a cooperativa no ano 2000 para a criação de um Centro Multimédia da Cinema Novo em antigas instalações da Real Companhia Velha. Argumento? "Está resolvido", terá dito, na ocasião. À VISÃO, Andreia Tavares, a causídica que tomou conta do caso, confirmou o teor da dispensa dos serviços, mas recusou adiantar pormenores ao abrigo do sigilo profissional. Já com Dorminsky na Câmara, o protocolo continua em vigor...e por cumprir. O armazém prometido, esse, já serviu para outros fins.
A questão da sobrevivência do Fantas e de uma cooperativa cuja atividade intensa decorre por um período inferior a metade do ano agudizou-se desde 2005. Já diretora, Beatriz tentou, junto da Câmara do Porto, duas soluções: "Propôs uma espécie de municipalização do festival que passava pela criação de um gabinete especial para o qual a autarquia a requisitava como diretora e lhe pagava o ordenado. A ideia foi rejeitada", esclarece Manuel Teixeira, chefe de gabinete de Rui Rio. "Procurou também que o município comprasse o Cinema-Jardim, a casa da Rua da Constituição. A cooperativa continuaria por lá e nós pagávamos aquilo a prestações. Era uma forma de subsídio e, apesar de se terem prolongado conversas, rejeitou-se também a solução", adianta.
A criação de uma fundação foi a última ideia para salvar o Fantas. Anunciada diversas vezes, ainda não saiu do papel. Foram enviados centenas de convites a figuras públicas, empresas e partidos políticos para apoiarem e se tornarem sócios de algo que nem sequer tinha estatutos ou fora institucionalizado. Respondeu o PCP com um cheque de 100 euros.
"Nós somos o pastel de Belém", assumiu Mário numa conferência de imprensa de fevereiro último para falar do Fantas, um festival de pouco dinheiro, "mas muitos amigos e parcerias", disse. "Nunca fomos subsidiodependentes", atalhou Beatriz. O certame, que já teve orçamentos de três milhões de euros em tempos de bonança, não vai ultrapassar, na próxima edição, os 250 mil euros. Já reduziu os convites e concentrou esforços. "O Fantas faz-se por 100 mil euros, no máximo", garantem, porém, antigos e atuais membros da cooperativa. Nas denúncias chegadas ao ICA reclama-se uma auditoria às contas. A diretora continua a dizer que o evento é vítima de "desleixo, ignorância e até alguma maldade".
Beatriz, colecionadora de globos de neve, antiga professora e agora também artista plástica com atelier e galeria de arte montados, assumiu que o Fantas se faz num cenário de "precariedade absoluta". Algo certamente difícil para uma mulher que nasceu numa família com origens na Idade Média e se habituou, ao lado do marido, "a fazer tudo em grande". Dorminsky nunca fez por menos. O sonho deste antigo vendedor de talheres e jornalista, era, confessou à Caras, ter "um loft na 5ª Avenida" e atravessá-la para ir às galerias de arte ou a um qualquer restaurante deslumbrante". Para já, quando muito, atravessará a ponte entre Gaia e Porto. Ou será que o candidato à Câmara Luís Filipe Menezes já não vê nele "o Senhor Cultura" de que a cidade Invicta precisa, como afirmou em tempos?
Dorminsky: o "Relvas" de Gaia?
"Tem o curso de cinema da New York Film School, de Comunicação Social da Escola de Jornalismo do IJDL e de Gestão e Marketing da ESMAP". Até há pouco tempo, assim começava o currículo oficial de Mário Dorminsky. Mas se hoje acedermos à página oficial do município de Gaia, damos pela falta destes "canudos". Apesar de diversas tentativas - inclusive junto do próprio - a VISÃO não conseguiu confirmar qualquer dos cursos do antigo diretor do Fantas. Em dois casos - IJDL e ESMAP - nem sequer descortinou de que entidades se tratam, embora não possa afirmar a sua inexistência. Convidado a esclarecer em que ano e instituições concluiu as formações, o vereador da Câmara de Gaia optou por não responder.
Quanto recebeu o Fantas?
As contas são por baixo, não havendo documentação disponível nas diversas entidades em relação a todas as edições do festival (33 até ao momento). Ainda assim, eis o que foi possível apurar pela VISÃO relativamente a apoios públicos ao certame (não foram contabilizados financiamentos privados):
ICA
2.209.885, 40 euros (entre 1997 e 2013)
Câmara do Porto
1.033.267,45 euros (entre 1991 e 2013)
Turismo de Portugal
260 mil euros (entre 2007 e 2010)
Programa Media da União Europeia
92 mil euros (entre 2011 e 2013)

Fontes: ICA, Câmara do Porto, Turismo de Portugal, Media Desk


Mário Dorminsky desmente ilegalidades no Fantasporto
LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 05/09/2013 in Público
Actual vereador da Cultura de Gaia promete esclarecimento “inequívoco” dos factos relatados na revista Visão.
Mário Dorminsky, fundador do Fantasporto e seu director até ter assumido funções como vereador da Cultura da Câmara de Vila Nova de Gaia, garantiu esta quinta-feira que “nunca foi cometida qualquer ilegalidade” na gestão da cooperativa que organiza o festival, a Cinema Novo.

Dorminsky reagia ao artigo “Fantasporto: o thriller financeiro”, publicado no último número da revista Visão, que imputa a Dorminsky e à sua mulher, Beatriz Pacheco Pereira, diversas irregularidades na gestão da cooperativa e do festival, incluindo fuga ao IVA, falsificação dos números de espectadores, duplicação de facturas e uso de verbas da Cinema Novo para fins pessoais.

Acusações que constam de uma denúncia anónima enviada em Maio ao Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA), que este terá já feito chegar, segundo a Visão, à Inspecção-Geral das Actividades Culturais e à Autoridade Tributária e Aduaneira, tendo informado destas diligências o secretário de Estado da Cultura. O gabinete de Jorge Barreto Xavier confirmou ao PÚBLICO que “tomou conhecimento” da denúncia e que o processo foi encaminhado para as autoridades competentes.

 A Visão terá ainda tido acesso a documentos da contabilidade da Cinema Novo. A revista reproduz um recibo de 2011 relativo a um cruzeiro que Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira fizeram no Mediterrâneo, emitido pela agência de viagens LogiTravel em nome da cooperativa, e cita o montante exacto — 2900 euros — que a Cinema Novo terá alegadamente desembolsado para pagar a despesa do jantar comemorativo do 50.º aniversário do director do Fantasporto, em 2005.

O PÚBLICO contactou Mário Dorminsky, que afirmou que o assunto está nas mãos dos seus advogados e explicou que, neste momento não prestaria quaisquer declarações, remetendo-nos para a nota que enviou à Lusa. Um comunicado muito breve e que foi escrito ainda antes de a revista chegar às bancas, com base numa síntese do artigo, antecipada quarta-feira no site da Visão. “São falsos os factos constantes da súmula já publicada que constituiriam irregularidades”, escreve o ex-director do Fantasporto, que continua a co-dirigir informalmente o festival.

Num post colocado ontem no Facebook, Dorminsky repete este desmentido genérico, acrescentando: “Só amanhã será conhecido na plenitude o teor da peça, após o que, com a brevidade possível, tudo será esclarecido de forma inequívoca e sustentada”.

Despedimento colectivo
A denúncia que serviu de base ao artigo da Visão chegou ao ICA pouco depois de a direcção da Cinema Novo ter avançado, em Abril, com um despedimento colectivo que afectou seis trabalhadores. Dorminsky justificou então a medida, que obrigou a um empréstimo bancário para pagamento de indemnizações, como uma tentativa de evitar a insolvência. Na ocasião, confirmou ao PÚBLICO que a cooperativa ficaria apenas com duas pessoas, Beatriz Pacheco Pereira, com um ordenado de 4500 euros brutos, e a secretária Irene Pires, com um salário de 2040 euros. O contrato do próprio Dorminsky está suspenso desde que iniciou funções como vereador da Cultura na autarquia liderada por Luís Filipe Menezes.

O ICA já fez saber à Cinema Novo, escreve a Visão, que a 34.ª edição do Fantasporto, em 2014, receberia apenas 50 mil euros, contra os 100 mil atribuídos à edição que decorreu em Março deste ano — uma decisão que mereceu já o protesto da cooperativa. O concurso que abriu este ano e terminou em Abril, de acordo com dados de 30 de Agosto do ICA, está ainda em fase de homologação — aguarda a confirmação por parte do Secretário de Estado da Cultura da decisão do instituto.

Mas a situação financeira do festival poderá complicar-se ainda mais. Se uma eventual investigação das acusações que constam da denúncia enviada ao ICA vier a confirmar a existência de irregularidades na gestão do Fantasporto, não é de excluir que o financiamento público da próxima edição possa vir a estar em causa.

Uma das acusações feitas na denúncia que a Visão cita diz respeito à falsificação do número de espectadores, que teria sido feita com recurso a “centenas de bilhetes a custo zero”. Ora, o número de espectadores é um dos critérios de elegibilidade do programa de apoio financeiro anual à realização de festivais em Portugal, sendo que um festival terá de ter um mínimo de cinco mil espectadores na sua edição anterior para poder candidatar-se (ou 2500, caso seja um festival que decorra num concelho com menos de 100 mil habitantes). Outro dos critérios é a existência de bilheteiras com controlo informatizado.

Segundo a Visão, a mesma denúncia falará ainda de outras irregularidades, como a “duplicação de facturas enviadas para os organismos públicos que apoiam o festival”.

Já fora do âmbito da denúncia ao IAC, a Visão chama ainda a atenção para uma aparente rasura sofrida pelo currículo de Mário Dorminsky no site da Câmara de V. N. Gaia. “Até há pouco tempo”, garante a revista, o dito currículo abria assim: “Tem o curso de cinema da New York Film School, de Comunicação Social da Escola de Jornalismo do IJDL e de Gestão e Marketing da ESMAP”. Todos estes cursos desapareceram entretanto da página da câmara de V. N. Gaia, mas ainda podem ser encontrados, por exemplo, no site da autarquia de V. N. Famalicão, a propósito de uma visita de Dorminsky, em 2008, ao Centro de Estudos Camilianos. A Visão adianta que não conseguiu sequer descobrir a que entidades se referem as siglas IJDL e ESMAP.
 com Joana Amaral Cardoso

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