sábado, 5 de maio de 2018

Os maiores a tirar bicas



Os maiores a tirar bicas

Há um indiscutível talento “tuga” para o abarracamento. Ele constitui grave sintoma da transformação de Portugal num país de estalajadeiros

ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO
5 de Maio de 2018, 9:00

1998 é o ano da abertura da Expo. É também a data de um novo perfilamento de Portugal e da sua vocação no presente e no futuro.

O Portugal que tinha deixado o ciclo do império, sem complexos e saudosismos, e que se definia agora como uma nação europeia, capaz de, com criatividade e modernidade, se integrar no projecto europeu sem negar o grande tema da sua vocação atlântica.

Álvaro Siza, vindo da Escola do Porto, e continuador da visão de Fernando Távora de uma modernidade do “regionalismo crítico”, concebeu um notável pavilhão com a responsabilidade de representar Portugal neste contexto internacional.

A sua linguagem arquitectónica, no seu jogo de volumetrias e luz, representa em tipologias intemporais, redutoras do classicismo, a dignificante gravitas exigida pelo tema e, num grande momento de criatividade arquitectónica e prodígio de engenharia, cria uma pala que unifica e determina o espaço de uma praça simbólica.

Ora, o pavilhão depois de contínuos episódios de hesitações, encontra-se órfão e abandonado. Ele transformou-se num novo símbolo. O símbolo de um país adiado.

Um país que não se cumpriu.

Assim, a última utilização encontrada para esta praça e respectiva pala foi a de um conjunto de barracas (ver foto ao lado), parece agora para marcar outra internacionalização, esta Eurovisão. Sim, já nos tinham habituado com as intervenções no Terreiro do Paço, e noutros locais, ao indiscutível talento “tuga” para o abarracamento, que se vai propagando por tudo quanto são espaços públicos, simbólicos e nobres.

Esta decadência e banalização é ilustrativa de um estado de cegueira contagiante e alienada.

Ela constitui grave sintoma da transformação de Portugal num país de estalajadeiros.

Num processo de globalização galopante e internacional, de repente fomos descobertos pelo turismo de massas. Com ele vieram processos que nos ultrapassaram e que nos tornaram dependentes e vassalos de uma economia global e de um potencial financeiro que nada tem que ver com as realidades da economia local. As consequências destruidoras e alienantes para a identidade local e cultural, para o direito à habitação, para o processo asfixiante de emprisionamento no trabalho dependente e precário, enfim, para todo o ecossistema social e humano são evidentes.

Portanto, não nos espantemos para esta nova utilização encontrada em espaço tão simbólico como a praça do Pavilhão de Portugal.

O símbolo é adequado, porque ilustra e representa um sintoma de uma nova vocação, e única perspectiva, para este antigo povo atlântico na Europa das “Eurovisões”:  os maiores a tirar bicas.

Historiador de Arquitectura

Vender a alma ao turismo





Vender a alma ao turismo

Como as beatas que velam pelas igrejas, muitos “agentes” do turismo vêem em cada crítica ao descontrolo do turismo uma ameaça, uma conspiração e um pecado. Falamos da identidade dos centros históricos e eles acenam com a fogueira dos hereges.

BÁRBARA REIS
4 de Maio de 2018, 6:45

O crescimento do turismo é o novo tabu do debate português. Como na discussão sobre o politicamente correcto ou a eutanásia, não se pode ser agnóstico, muito menos ateu.

Quem não vê um mar de rosas é antipatriótico. Quem defende mais regulação tem uma “agenda política”. Quem mostra preocupação com o esvaziamento dos centros históricos quer destruir a economia. Quem pede mais intervenção das câmaras e dos governos é insensível, irrealista e irresponsável. Quem não tem fé cega no mercado é ignorante. Quem fala do impacto negativo do turismo de massas noutras cidades europeias é manipulador. Quem critica é malicioso. Quem questiona faz propaganda. Quem defende travões esconde um lobby.

Como as beatas que velam pelas igrejas, muitos “agentes” do turismo vêem ameaças, conspirações e pecados a cada esquina.

Sobre o Algarve não se pode falar, talvez por ser demasiado doloroso. Passamos por Quarteira e Armação de Pêra com uma venda nos olhos e dizemos que ainda há “paraísos secretos” a um passo do caos. Atravessamos a Strip — é assim que, inspirados em Las Vegas, os turistas chamam à Rua da Oura em Albufeira — e lembram-nos que nos anos 1960 se passava “fome a sério no Algarve”. Olhamos com tristeza para a costa algarvia transformada numa Torremolinos semicontínua e perguntam se queremos mandar milhares para o desemprego. Ao ler o livro Turista Infiltrado (FFMS, 2017), de Bernardo Gaivão, descobri que o guia de viagens Lonely Planet descreve as “praias douradas” do Algarve com enlevo, mas a seguir acrescenta: “Sejamos honestos: o principal destino de férias de Portugal vendeu a sua alma ao turismo nos anos 1960.”

De Veneza também não se pode falar, porque isso é comparar alhos com bugalhos, dizem de imediato, esquecendo que Cícero, que ensinou o Ocidente a argumentar, falou assim para um amigo que estava a morrer: “Marcellinus, não te atormentes. Viver não é assim tão especial. Todos os teus escravos o fazem e também todos os animais.” Hoje parece estranho, mas no mundo a.C. essas eram categorias diferentes: cidadãos de um lado, escravos e animais do outro. Sim, olhemos para Veneza. É desconfortável e o exercício dá-nos uma única fonte de tranquilidade: foi o encanto extremo de Veneza que conduziu a soluções extremas (como fechar partes da cidade com barreiras de ferro). Sendo as nossas cidades menos exóticas, não vamos acabar com cancelas no Terreiro do Paço. Mas das réplicas dos outros efeitos nocivos do descontrolo do turismo não escapamos. A “expansão desenfreada do alojamento a curto prazo” é justamente uma das preocupações do Corporate Europe Observatory, que esta quinta-feira publicou um relatório sobre o lobby que o Airbnb faz junto das instituições europeias (investiu meio milhão nos últimos dois anos).

De Berlim e Barcelona também não se pode falar porque são países ricos e nós somos pobres e porque as legislações são diferentes. Das lojas distintivas que estão a desaparecer não se pode falar sem receber telefonemas “a título pessoal” de assessores da Câmara Municipal de Lisboa, incomodados com as críticas. Do alojamento local nos centros históricos não se pode falar sem abrir a jaula de leões. Dos tuk-tuk não se pode falar sem abrir a jaula ao lado. Da importância da identidade dos centros históricos não se pode falar porque isso é matar o empreendedorismo e desprezar as famílias que vivem desse negócio. Querem fazer-nos crer que há uma verdade única e quem tem dúvidas é herege e vai para a fogueira.

  

Saída de moradores e lojistas transforma centro de Lisboa e motiva preocupação / O mistério das lojas asiáticas por ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO



Saída de moradores e lojistas transforma centro de Lisboa e motiva preocupação
04.05.2018 às 15h52

http://expresso.sapo.pt/…/2018-05-04-Saida-de-moradores-e-l…

TIAGO MIRANDA

Rendas altas, saída dos moradores para a periferia da cidade e falta de apoios são alguns dos problemas para o abandonado do centro de Lisboa. “Houve algum exagero que importa corrigir” é a opinião de Victor Silva, dirigente da Associação de Valorização do Chiado, sobre medidas aplicadas às habitações lisboetas

LUSA
A transformação do centro da cidade de Lisboa, com o aumento das rendas, a saída de moradores e o fecho de lojas, preocupa crescentemente associações e coletividades da zona, onde já é mais difícil encontrar participantes para as marchas populares.

Segundo o vice-presidente da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina, Vasco Melo, a Baixa tem assistido ao encerramento de muitas lojas "quer por negociação entre as empresas e os senhorios, quer por denúncia dos senhorios para a realização de obras profundas, quer por fim do período transitório do NRAU [Novo Regime de Arrendamento Urbano]".

Em declarações à Lusa, Vasco Melo lamentou que muitos estabelecimentos comerciais estejam a ser substituídos por lojas de 'souvenirs' - e não percebe como é que "têm rentabilidade para pagar rendas elevadas" - ou por hotéis, hostels e alojamentos locais.

O NRAU, sublinhou, pretendia nivelar o valor das rendas novas e antigas, mas o que aconteceu foi que "as rendas novas dispararam para preços que hoje qualquer empresa comercial normal que vá por racionalidade económica não consegue pagar".

COMERCIANTES JÁ SE “CONTAM PELOS DEDOS”
O dirigente da Associação de Valorização do Chiado, Victor Silva, acredita que "havia muitos negócios instalados que não geravam negócio e se mantinham pelo não aumento das rendas", o que "também não era bom para a cidade". No entanto, considera "que houve algum exagero que importa corrigir", até porque os comerciantes já se "contam pelos dedos".

A cidade de Lisboa, apontou, perdeu cerca de 300 mil habitantes nos últimos 30 anos, "enquanto o investimento ia todo para as periferias".

No entender do responsável, "o caos com o trânsito" e os valores excessivos de estacionamento fazem com que as pessoas "comecem a deixar de ir para o centro histórico" e escolham as grandes superfícies.

"Chega a ser colocada sinalética a indicar o [centro comercial] Colombo na Baixa e nós temos de pedir para retirar", apontou.

As dificuldades chegam também às coletividades históricas no centro de Lisboa, como é o caso da Academia Recreio Artístico, que está a sofrer com o aumento do valor das rendas, uma "asfixia" que coloca a segunda coletividade mais antiga de Portugal em risco de "ter de fechar portas".

O presidente, Armando Oliveira, disse à Lusa que a coletividade, na freguesia de Santa Maria Maior, "sofreu e está a sofrer as consequências drásticas de um aumento inusitado de rendas", com valores que rondavam os 400 euros e que aumentaram para 1300 euros.

Segundo o representante, hoje é imperativo conter custos, uma vez que os auxílios "são praticamente inexistentes" e que as receitas da Academia Recreio Artístico "não se compadecem com uma renda deste tipo".

HABITANTES EXPULSOS E MENOS PESSOAS PARA AS MARCHAS
Já o Grupo Desportivo do Castelo e o Grupo Desportivo da Mouraria não têm sofrido com o aumento das rendas uma vez que ocupam espaços camarários, mas mantêm-se de pé com dificuldades associadas à falta de pessoas e de apoios.

O vice-presidente do Grupo Desportivo do Castelo, Carlos Oliveira, referiu que há muitas pessoas "a serem expulsas das casas onde nasceram porque o aumento das rendas foi brutal" e acrescentou, com ironia, que "a cidade já perdeu os seus bairros mais emblemáticos, a tal ponto que esta casa, organizadora desde os anos 30 da marcha do Castelo, está a pensar em propor para o próximo ano que em vez de arcos sejam turistas a arrastar os tróleis".

"Uma marcha popular são cerca de 70 pessoas. O grupo desportivo está a organizar a marcha deste ano e o Castelo vai sair novamente. Apenas três pessoas moram no bairro. Todos os outros são filhos desta comunidade, mas têm de vir de fora", acrescentou.

No bairro da Mouraria, a situação é idêntica. A coletividade não tem sofrido com as rendas, por estar instalada num edifício camarário, mas há outras despesas para pagar, nomeadamente água e luz, exigindo assim "esforço e trabalho", referiu à Lusa a vice-presidente do espaço, Carla Correia, destacando que a associação se mantém de pé por gosto e que quem trabalha no bar não é remunerado.

FALTA DE APOIOS COLOCAM ASSOCIAÇÕES EM RISCO
Muitos habitantes têm sido despejados do bairro e já não há pessoas suficientes para duas marchas populares, como antigamente.

Ainda assim, Carla Correia está confiante de que "com muito esforço" a associação continuará erguida.

No que diz respeito a apoios externos, os dirigentes destas associações dizem que a Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa, à qual os associados têm de pagar 75 euros por mês, não presta qualquer apoio.

"Podiam congregar vontades, levar as coisas por diante, não me parece que estejam interessados", referiu Carlos Oliveira.

A Lusa tentou contactar a associação, o que não foi ainda possível.


O mistério das lojas asiáticas


O perigo de generalizações exige-nos prudência e cautela, mas também não nos pode conduzir à paralisação e à apatia.

ANTÓNIO SÉRGIO ROSA DE CARVALHO
12 de Julho de 2017, 6:06

Este artigo é totalmente baseado e sustentado por citações e constitui um convite aos ilustres jornalistas para traduzirem estas perguntas e questões em investigações, que possam contribuir para o desvendar deste mistério.

“Durante o primeiro período de trabalho de campo havia 60 lojas de bangladechianos nesta zona de Lisboa. Em 2006 eram já 80 ao longo da Avenida Almirante Reis, Rua da Palma, Calçada dos Cavaleiros, Rua do Benformoso, Largo do Intendente, Rua de São Lázaro e nos centros comerciais Mouraria e Martim Moniz. Em 2008, ocupavam já mais de 150 lojas, entre a Praça Martim Moniz e imediações, os Anjos e a baixa lisboeta (onde, só no último ano, abriram mais de 30 lojas).”

Isto afirma José Mapril em 2010 num estudo académico publicado na Etnográfica Revue. Num levantamento desenvolvido pelo sociólogo Guilherme Pereira ele assinala que desde 2010/12, na zona da Baixa, as lojas de souvenirs low-cost (LLC) de fabrico massificado e pretensamente português ou representativos de Lisboa passaram de nove para 90!

Muito recentemente, Carla Salsinha (2017), a presidente da UACS, avisava com pertinência e urgência: “Todos os tipos de comércio têm direito a existir”, mas confessou ter dificuldade em entender a concentração de lojas de recordações turísticas de baixo custo e de kebabs, “em locais onde os comerciantes portugueses não conseguem sobreviver”. Apesar das rendas cada vez mais altas, só na Baixa haverá 97 lojas de souvenirs detidas por cidadãos do Bangladesh, disse a presidente da UACS. E depois, para além dessas, há todo um mundo de lojas muito caras e das grandes cadeias multinacionais. Tudo isto estará a criar um quadro muito desfavorável para o comércio convencional.

Salsinha denuncia uma total ausência de planeamento estratégico por parte da CML, do chamado Urbanismo Comercial nos licenciamentos, de forma a garantir um equilíbrio. Além disso, os produtos de fabrico massificado e pretensamente “portugueses” garantem um tsunami de plástico e quinquilharia híbrida, que afecta e domina largamente o ambiente e a imagem de uma zona que se pretendia como a historicamente central e nobre de Lisboa.

Em 2014, a conceituada e respeitada professora Raquel Varela, especialista nas questões do Trabalho, já tinha referido o efeito nocivo e incompreensível deste fenómeno: “As mercearias asiáticas em Portugal fazem dumping como fazem as empresas-monopólio portuguesas cujos preços e a produção é inteiramente — e sem qualquer livre concorrência que não a da aparência jurídica — por estas fixada. Não faço ideia se as ditas mercearias são indianas, do Bangladesh, ou do Paquistão, nem me interessa, se fossem alentejanas e fizessem dumping eram as mercearias alentejanas que, como fazem dumping, não podem vender produtos de qualidade nem ter trabalhadores com condições dignas. Entram em Lisboa, e noutras cidades, com salários mais baixos, horários não controlados por ninguém e condições laborais desconhecidas — muitas com um regime fiscal abonatório durante cinco anos.”

Seguindo esta linha de questões, a jornalista Sónia Simões publicava um artigo no Observador (18 Março 2016): “Nos últimos meses, o número de mercearias e frutarias tem crescido abruptamente nas ruas dos bairros históricos de Lisboa. E não só. Já se começam a fazer notar noutros concelhos. Para tal, também contribuíram as leis portuguesas. Por um lado, como sublinhou ao Observador o vereador Duarte Cordeiro com o pelouro da Economia e Inovação da Câmara de Lisboa, o Licenciamento Zero, que vem simplificar a vida aos empresários que queiram abrir um negócio. Por outro, refere o responsável pelo SEF, a própria Lei dos Estrangeiros, que dispensa os vistos de trabalho para a autorização de residência no país.

Assim, qualquer cidadão estrangeiro que obtenha um contrato de trabalho e faça descontos para a Segurança Social consegue automaticamente uma autorização de residência — o que não acontece noutros países da Europa. ‘Temos indícios de que algumas lojas possam estar a ser usadas para esse fim’, reconhece o investigador. Sempre que os serviços de fiscalização do SEF se deparam com vários contratos de trabalho em nome de uma mesma empresa, abrem um inquérito para apurar se existe, de facto, uma relação laboral, ou se é uma relação fictícia. Daí as empresas estarem frequentemente ‘a rodar’. Isto é, a abrir e a fechar, mas mantendo os mesmos espaços comerciais.”

Para terminar, o perigo de generalizações grosseiras e de estigmatizações ou mesmo de inaceitáveis discriminações de grupos étnicos exige-nos prudência e cautela, mas também não nos pode conduzir a uma paralisação e apatia impedidora, inibidora e neutralizadora dos mais básicos princípios de análise, dedução e discernimento daquilo que é evidente. Trata-se do equilíbrio e futuro de Lisboa!

Alice já não mora aqui



Alice já não mora aqui

Lisboa passou a viver de e para o turismo, fomentando a destruição de toda a zona central da cidade.

MARGARIDA SAAVEDRA
4 de Maio de 2018, 6:19
 https://www.publico.pt/2018/05/04/local/opiniao/alice-ja-nao-mora-aqui-1824205

A casa onde Alice morava foi transformada em muitas casas pequenas e o Francisco diz que o prédio ficou cheio de figurantes. É assim que chamam aos vizinhos que chegam e logo partem, malas a arrastar e mapa na mão.

Procura uma casa para a Alice poder voltar a brincar com ele. Aponta para o lote em frente à minha casa:

– Não, aí não!

– Mais figurantes? – respondo que sim

Vejamos: o turismo é um bem! Animou a economia e fez renascer o casco histórico onde fogos de exíguas dimensões (que por vezes não chegam a ter 25 m2), depois da casa de banho que não existia e de uma kitchenette com o mínimo, ficam reduzidos a um exíguo T0 ou T1, se houver janela. Estes fogos, pouco vocacionados para longas estadias, são o alvo daqueles que procuram Lisboa, única na encruzilhada de civilizações milenárias, numa memória exclusiva. Veio trazer desafios de qualidade e criatividade fazendo rejuvenescer o pequeno comércio local. O problema é que se tornou invasivo e, ao invés de fortalecer uma relação simbiótica com os habitantes, começou a expulsá-los.

Com o apoio do PS e dos independentes liderados por Helena Roseta, a câmara passou a viver de e para o turismo, fomentando a destruição de toda a zona central da cidade, outrora residência da classe média, inundando-a de hotéis e serviços, permitindo que habitações familiares se desdobrassem em dezenas de T0 e T1, fazendo subir em flecha, pela escassez, apartamentos com mais de 80 m2.

A câmara poderia ter contrabalançado este desequilíbrio fixando habitações familiares na Praça de Espanha, Entrecampos, Restelo, etc., onde detinha enormes superfícies. Mas não: veio aumentar este deficit lançando em hasta pública, a quem pagar melhor, mais hotéis, mais serviços, aquilo que mais rende, como qualquer especulador. A Alice também já não deverá ir para Benfica, uma vez que o plano foi alterado de forma a que T2 e T3 dessem lugar a T0 e T1.

Estes mesmos que agora despem as vestes nos telejornais, proclamando o direito à habitação e ameaçando os proprietários que se aproveitam da escassez que eles incentivaram. Com a prática de especuladores, vêm reclamar contra a especulação numa cidade cheia de figurantes, que lhes são simpáticos, porque não votam, fazem disparar o IMI, relançam o comércio. Não precisam de buracos tapados nas ruas, de sarjetas limpas, de creches, de escolas, de apoios que a Alice precisa... mas a Alice já não mora aqui!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O eléctrico 24 e a triste Lisboa



 Utilizar exclusivamente  o 58 como termo comparativo é curto ... Trata-se fundamentalmente de que os eléctricos das carreiras históricas deixaram de ser um serviço para as populações Locais e os Lisboetas . Tornaram-se exclusivamente numa atracção turística. É portanto absolutamente "naif" ou ilustrativo de uma grave incapacidade realista de reflexão abrangente de considerar, nestas circunstâncias, o regresso do 24 como um grande progresso para a Lisboa Local utilizando títulos megalómanos como: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade: o regresso do E-24" ...Nas actuais circunstâncias, o regresso do 24, será um "gigantesco passo" para a Lisboa Globalizada ... mas um desastroso passo para a Lisboa Local, a Lisboa dos Lisboetas. 
António Sérgio Rosa de Carvalho
OVOODOCORVO

O eléctrico 24 e a triste Lisboa

O 24 não vai resolver nenhum problema de mobilidade dos cidadãos: pelo contrário transtorna e dificulta o percurso do autocarro 58, que liga partes extremas de Lisboa. A política é clara: é bom para os turistas!

Fernando Sobral | fsobral@negocios.pt

03 de maio de 2018 às 22:55


Com elevada pompa e muita circunstância foi inaugurada a circulação do eléctrico 24 que liga o Largo Camões a Campolide. Passados uns dias fizemos a experiência, o que no início parecia ser gratificante. Íamos meia dúzia de passageiros e nenhum turista. Até que o eléctrico, na terrífica Rua da Escola Politécnica, parou. Um carro mal estacionado impedia o progresso. Fomos avisados de que a paragem não prevista era agora um hábito porque o 24 encontrava sempre pelo caminho carros mal estacionados. Não demoraria muito, porque já a prever isso a Polícia Municipal e um carro de reboque estavam estacionados no Príncipe Real e rapidamente a situação seria desbloqueada. Pior ficou o autocarro 58, que seguia atrás, e que não o podia ultrapassar, cheio de pessoas, e que teve de parar durante todo aquele tempo. Percebi depois que o que acontecera naquele momento era um hábito, o que estava a tornar a já complicada Escola Politécnica uma rua impossível de circular para os transportes públicos. Ou seja, o 24, criado para atrair turistas, é mais um exemplo de como em Lisboa a Câmara Municipal e a intervencionada Carris não pensam no trânsito dos moradores e dos que utilizam os transportes públicos para circular na cidade. Sonham apenas com o postal ilustrado para os turistas. O 24 não vai resolver nenhum problema de mobilidade dos cidadãos: pelo contrário transtorna e dificulta o percurso do autocarro 58, que liga partes extremas de Lisboa. A política é clara: é bom para os turistas! Quanto aos cidadãos que pagam impostos e passes sociais, que se lixem! Ainda antes desta euforia turística, já a Carris, dentro do seu espírito ao serviço da mobilidade urbana, tinha encerrado a actividade do autocarro 100 que ligava duas colinas lisboetas. Uma carreira como essa, fundamental, não é reactivada. O 24, para uso turístico, é que é uma prioridade.
Nada que surpreenda dentro da política de transformação de Lisboa num mero postal ilustrado turístico. A própria decisão do Governo de "limitar" as "rendas acessíveis" de um T2 a 1.050 euros em Lisboa e de um quarto a 360 euros vai apenas servir para inflacionar ainda mais os preços na capital. Está claro: nem a CML nem o Governo querem portugueses de classe média (já nem se fala dos outros de menores possibilidades) na zona central de Lisboa. Que vão morar para a margem sul ou para Vila Franca de Xira. Sabemos que as cidades voltaram a ser redutos de quem tem posses e locais privilegiados para turistas. Mas é assim que se assassina a vida própria de uma cidade, a sua memória e a capacidade de atrair as pessoas criativas que as tornam locais diferentes. Um dia destes morarão em Lisboa franceses e brasileiros ricos e alguma classe alta portuguesa. Quando se quiserem fazer as marchas populares alguém contratará figurantes a agências de modelos. Até para dar de Lisboa a ideia de uma cidade jovem, bonita e "cool". É essa a herança que a CML de Fernando Medina e Manuel Salgado estão a legar ao futuro: uma Lisboa sem alfacinhas. Sem vida própria, sem memória, onde é impossível circular. Lisboa está cada vez mais triste.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

No turismo “não há mão-de-obra, ponto”



Imagem e frases do Dia / OVOODOCORVO
No turismo “não há mão-de-obra, ponto”
De relembrar as afirmações do mesmo Francisco Calheiros a 28/10/2018:
“Têm de ir para Rio de Mouro? Se calhar, têm. Ou para o Barreiro, Almada ou Montijo? Se calhar, têm. Quem é rico pode ir para o Bairro Alto ou para o Chiado, quem não é não pode. Não há um mundo perfeito.”
Francisco Calheiros. “Quem é rico pode viver no Chiado, quem não é não pode. É assim”
Para o presidente da Confederação do Turismo Português, este é um dos preços a pagar pelo crescimento do turismo e, com ele, a subida do preço das casas
SÓNIA PERES PINTO
28/10/2017 11:54


ENTREVISTA FRANCISCO CALHEIROS
No turismo “não há mão-de-obra, ponto”
Francisco Calheiros, reeleito para a presidência da Confederação do Turismo Português (CTP), diz que pode haver um abrandamento do crescimento do sector este ano, e que o importante é apostar mais na estadia média e no aumento do preço.

LUÍS VILLALOBOS 2 de Maio de 2018, 8:00

Eleito para um terceiro mandato à frente da Confederação do Turismo Português (CTP), onde ficará até 2021, Francisco Calheiros tem dúvidas sobre a operacionalidade do aeroporto complementar do Montijo em 2022. “Todos os dias perdemos a vinda de novas rotas aéreas e turistas”, destaca. Sobre questões laborais, diz que as necessidades estão muito acima da procura, um problema que “precisará de várias frentes” para ser resolvido, envolvendo as escolas, a migração e a requalificação de trabalhadores.  E que o banco de horas individual é uma das “linhas vermelhas”.

O seu discurso de tomada de posse foi virado para os desafios do futuro. Quando é que o crescimento do turismo começa a abrandar?
Dizer quando é que um determinado sector vai entrar em maior ou menor crescimento ou em recessão é algo muito difícil. Sabemos que os ciclos económicos existem, pelo que é evidente que vai haver um dia - esperamos que seja o mais longínquo possível - em que surgirá uma crise. No passado foi por causa do subprime, por exemplo, o que é que vai ser no futuro não sabemos. Agora, não há dúvida nenhuma que desde há quatro anos a situação tem estado a melhorar. O ano de 2017 foi um excelente ano, no seguimento do que tinha sido 2016 e, se nada de anómalo acontecer, todos os dados indicam que 2018 vai ser outra vez um bom ano. Poderá não crescer tanto como em 2017, mas o ritmo de crescimento tem sido uma loucura.

Haverá um abrandamento já este ano?
Poderá haver. Mas não está nada garantido. Não gosto de fazer comparações antes do primeiro quadrimestre, com a inclusão da Páscoa, que é extraordinariamente importante. Agora, se o sector cresceu 7,5% no ano passado, e se este ano crescer 6%, todos ficamos contentes. Até porque temos de entrar mais num outro tipo de guerra, que é a do aumento de preço. Já temos tido aumento de preços. Até por causa do aeroporto de Lisboa, que vai ser um entrave [ao crescimento] … então, o que é que temos de fazer? Apostar mais na estadia média e no aumento do preço. Se, por exemplo, mudarmos uma estadia média de 2,4 noites para três, já é um enorme aumento.

De facto, o que se verifica que é tudo tem crescido, menos a estadia média…
Sim, tem-se mantido.

Porquê?
Veja o caso de Lisboa. Os grandes drivers têm sido os citybreaks e os congressos e incentivos. Os congressos têm uma determinada durabilidade, dois dias, eu não posso chegar ao pé da organização e pedir para o evento ter mais um dia porque me dá jeito. Quanto aos citybreaks, estão a crescer na Europa e Portugal, com destaque para Lisboa e Porto, está muito à frente nessa realidade. E é isso mesmo, um break, de dois, três dias. 

Como é que se aumenta o tempo de estadia?
Há várias coisas que se podem fazer. Há uns meses, por exemplo, fui a um hotel que faz agora um espectáculo musical a um dia de semana. Se for a uma segunda-feira, a pessoa que vinha passar o fim-de-semana pode ficar mais um dia. Ou vinha na terça-feira em trabalho e antecipa a viagem para ver o espectáculo. Mas da mesma maneira que é importante subir a estadia média também temos de ir continuando a crescer no preço médio. Há zonas onde tem crescido bastante, mas vínhamos de um patamar muito baixo, por causa da crise. Os preços, que não eram altos, baixaram bastante nessa altura. E baixar é o mais fácil do mundo, subir é que é muito difícil. Esse é um trabalho que tem vindo a ser feito nos últimos dois anos. O RevPAR [rendimento por quarto] da nossa hotelaria tem vindo a crescer, e tem de continuar a crescer.

Portugal distinguido pela Organização Mundial do Turismo
Portugal distinguido pela Organização Mundial do Turismo
Vê com preocupação a possibilidade de sobrecarga em alguns destinos? Uma análise recente do IPDT referiu que Lisboa e Porto têm um índice de turistas Vs. residentes superior a Londres e Barcelona.
É preciso algum cuidado na forma como se olham para as contas. O cálculo tem de ser feito com o número de habitantes Vs. o número de turistas que nos visitam diariamente, e aí as contas não são iguais. Mas estamos longe de ter turistas a mais.

Referia-me a risco de sobrecarga em algumas zonas.
Existem algumas zonas, em Lisboa, onde já existe uma carga grande de turistas. Em algumas, isso não incomoda muito a população, como em Belém. Mas há outras, como o Bairro Alto e o Castelo, em que a situação é diferente. Temos poucas centralidades em Lisboa, e temos de definir novas centralidades. É isso que a Câmara está a tentar fazer, e temos tido um grande diálogo com a autarquia nesse sentido, até por causa da questão dos transportes.

Como e onde é que isso pode ser feito? É que normalmente as pessoas querem ver o que é o mais típico…
O que se está a fazer na zona de Marvila, por exemplo, é notável. E há a Expo, que é uma zona nova, aberta, com óptimos transportes.

Mas os turistas não vão deixar de visitar a zona do Castelo. Vai-se chegar a um ponto em que é preciso limitar o número de visitantes?
Não sei. Se cá estiver três dias, e tiver três centralidades, vai a essas. Mas se houver seis, se calhar não vai a metade delas. E se souber que em três há sítios onde vai estar meia hora para entrar, se calhar vai às outras três. Mas é um tema… neste momento, estamos a fazer um estudo com a PwC por causa disso. Preocupa-nos os que vemos em determinadas cidades, como Veneza, Barcelona, Amsterdão, embora estejamos longe de estar assim. Neste momento, quer em conversas em a câmara, quer com a secretaria de Estado do Turismo, estamos a criar novas centralidades e a ver o que é que mais pode ser feito, porque a questão está muito concentrada em dois ou três sítios.

Qual o objectivo do estudo encomendado à PwC?
Para já, saber exactamente onde é que estamos.

Em termos de sobrecarga?
De carga, de sobrecarga, como quiser. Saber como é que isto está. E saber o que é que se está a fazer e o que é que se pode fazer para que essas questões possam ser ultrapassadas. Como, por exemplo, dinamizar mais a deslocação de turistas para Cascais e Sintra através do comboio, com condições. Outro exemplo: em muitos países, quando vai a um sítio, já vai com tudo tratado. Se quer ir a um museu, ou a um espectáculo, já vai com os bilhetes comprados. Em Portugal há muitos sítios onde as pessoas querem ir mas não conseguem comprar um bilhete online. Estas são situações podem e devem ser regularizadas.

O que espera das alterações à lei do Alojamento Local (AL), a ser preparadas no Parlamento? Concorda com uma maior intervenção do poder local no caso de desequilíbrio entre o número de AL e de moradores permanentes, bloqueando novas autorizações?
Em primeiro lugar, o AL é algo positivo, relativamente novo, e existe em todas as cidades e países. É uma nova forma de fazer turismo. Como qualquer nova forma de turismo, tem de cumprir as regras que as actuais formas de turismo cumprem. A hotelaria paga fiscalidade, o AL tem de pagar fiscalidade. Se a hotelaria tem uma taxa turística, o AL também tem de ter. A CTP pauta-se por uma igualdade de tratamento, seja a nível de aprovações, de controlo, de fiscalidade, etc. Agora, a nossa função é trazer mais turistas para Portugal, e fazer com que tenhamos uma boa oferta, com que tudo funcione. Essa questão [do AL] tem a ver com as autarquias, com o Governo…

Tem a ver com o impacto do turismo em determinadas zonas. Falámos do impacto dos turistas, que andam nas ruas, e disse que encomendaram um estudo. Ora o AL faz parte desse impacto, com bairros a perderem pessoas que lá viviam…
Não se pode dizer que os moradores estão a ser expulsos dos bairros por causa dos turistas, é um pouco abusivo. Veja o Chiado, há vinte anos. Era uma zona completamente desertificada, ninguém queria viver lá, era inseguro. Tem ideia de que mais de 60% das casas que são hoje AL estavam abandonadas? Se tudo continuasse assim, hoje o Chiado não tinha ninguém a viver lá. O turismo descobre isto, dinamiza, requalifica, torna seguro, tem comércio… e agora o problema é o de que está a mais? Assim é difícil.

Os turistas não vão querer pernoitar num bairro onde à sua volta só têm outros turistas…
Claro que não. Querem ter a característica local, obviamente. Agora, nós temos de fazer o nosso trabalho, e os outros [Parlamento, Governo, autarquias] têm de fazer o deles.

Mas é ou não favorável às quotas para o AL em determinadas situações?
São uma alternativa. Tem de haver outras. É preciso haver um equilíbrio, um meio termo. Mas chamo a atenção para o estudo feito pela Associação de Turismo de Lisboa no ano passado, onde se diz que mais de 90% dos lisboetas [inquiridos] estão contentes com o que se passa no turismo. Isso é algo extremamente importante. Depois, os turistas que nos visitam ainda não sentem isso [excesso]. 

Tem-se mostrado céptico relativamente à operacionalização do aeroporto complementar do Montijo em 2022. Porquê?
Ainda está muita coisa por fechar, quer ao nível do estudo de sustentabilidade, quer ao nível das contrapartidas camarárias, mas sobretudo porque o acordo de concessão entre o Governo e a concessionária, a Vinci, está muito atrasado. Tudo o que sabemos hoje, sabíamos há um ano. E durante 2017 aconteceu pouca coisa, para não dizer quase nenhuma. Daqui a dois meses é Verão e daqui a quatro ou cinco meses úteis estamos em 2019. E em ano de eleições o que é que acontece? Nada. Independentemente do facto de o novo Governo ser ou não de continuidade, virão com certeza com caras novas, e o que vamos ouvir dizer é “temos de estudar isto”. Ora o aeroporto de Lisboa está no limite, todos os dias perdemos a vinda de novas rotas aéreas e turistas.

Há o risco de o Montijo não avançar?
Isso não. O Montijo é o mais rápido, por isso será sempre construído, mas tem que se fechar o acordo rapidamente. Ninguém vai por em causa o Montijo. Isto já está entupido. Já estamos em 2022 e deveria ser antes, em 2021. Aquilo que tivemos há uns anos, uma final da taça dos campeões europeus, não poderíamos ter agora. Um evento de pico? Esqueça. Porque implicaria "X" aviões para os quais não temos capacidade. E não podemos falar no aeroporto [de Lisboa] sem falar no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Por causa do tempo de espera?
Está a ficar horrível e não são problemas novos. A CTP tem feito tudo o que é possível, falámos com este Governo, falámos com o anterior...

Mas é falta de inspectores ou também falta de espaço físico?
Não, não é pelo espaço. O SEF diz que faltam inspectores, o Governo diz que pôs 50 no ano passado, mais 50 este ano... mas há uma coisa que é certa, quando você chega, tem 16 boxes de atendimento e muito raramente estão cheias, por isso não estamos a falar de falta de boxes. Quando o passageiro vem da zona não Schengen, que são normalmente os maiores voos, do Brasil, Estados Unidos, etc., chega a estar duas horas à espera. Não é admissível alguém chegar de um voo de 11 horas e sujeitar-se a isto. A primeira experiência que se tem no país é péssima. Já falámos com o ministro, com a antiga e a actual direcção do SEF, em Janeiro, e agora o que vemos é que chegámos a Abril – e atenção que ainda não é época alta – e já estamos a falar em duas horas. É inadmissível. Estamos a solicitar novas reuniões, quer com o ministro da Administração Interna, quer com a direcção do SEF.

Há muitas queixas relativamente à falta de mão-de-obra qualificada. Como é que se consegue mão-de-obra qualificada, com baixos salários e a questão da sazonalidade?
Neste momento não falamos em mão-de-obra qualificada ou não qualificada: não há mão-de-obra, ponto. Deixe-me fazer umas contas simplistas… as nossas escolas de turismo trazem à volta de três ou quatro mil novos formandos todos os anos, se as outras escolas formarem mais 3500 e se você tiver três mil imigrantes -- que não faço ideia se tem -- chega a cerca de dez mil pessoas. De quanta mão-de-obra temos precisado nos últimos anos? Quarenta mil. Não tem solução. No estudo que andámos a fazer constatámos que há unidades hoteleiras no Algarve que vão todos os dias buscar e levar pessoas ao Alentejo. Isto é um problema que vai demorar tempo a solucionar e que precisará de várias frentes, como o aumento das vagas de estudo, da migração ou a requalificação de outras pessoas.

Mas como é que se resolve?
Vai resolver-se em alguns anos, não num mês. Por um lado tem que haver aumento de alunos e mais integração. Há muito talento em Portugal, não tenho dúvida nenhuma, os nossos trabalhadores brilham sempre lá fora, sejam dos mais ou menos qualificados. Temos de reconverter esse talento em Portugal para o turismo. Reconheço que a CTP tem de fazer o trabalho de criar mais awareness, mais apetência para vir para o turismo. Há uma coisa para a qual já toda a gente quer ir, que é chefe de cozinha, que passou a ser uma profissão atractiva. Mas temos de criar mais atracção para a hotelaria e a restauração. Não me canso de dizer que o turismo é muito mais do que hotelaria e restauração, o turismo é golf, resorts, companhias aéreas, agências de viagens, transportes, mas aí não temos a mesma dificuldade. É evidente que esta é uma actividade que em alguns sítios tem alguma sazonalidade, embora no ano passado dois terços do crescimento tenha sido na época baixa. Um hotel que tem uma ocupação de 95% em Agosto, no Algarve, para o ano terá 95% outra vez e já tem o quadro de pessoal preparado para isso. Mas esta é uma actividade sazonal e portanto temos de ter uma legislação laboral suficientemente flexível.

Mas será que o sector não consegue atrair as pessoas de que necessita pelos salários que pratica, que em média são baixos, e precisamente por essa elasticidade do “preciso, não preciso”?
Salários baixos? Calma. Este é um sector que tem como ponto positivo, entre outras coisas, o facto de abarcar pessoas com altíssimas qualificações, mas também pessoas com menores qualificações. Por isso tem de haver lugares para todos. Segunda questão, normalmente fala-se muito no salário mínimo, no sector paga-se X%  (é um número alto) de salários mínimos, mas o problema é que em 90% da nossa actividade, seja numa companhia aérea, num aeroporto ou num hotel, trabalha-se 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. Ninguém recebe o salário mínimo, mas quando você faz as estatísticas é isto que está em cima da mesa e qualquer subsídio que você aqui tenha de fim-de-semana, de noite, ou de turno, soma. Essa é que é a conta.

Mas o rendimento médio anual de um trabalhador no sector da hotelaria e restauração é cerca de 33% inferior ao conjunto da economia.
A base.

Não sei se é a base. É o que está escrito na estratégia do turismo até 2027, do Governo, e não diz se é base.
É base, estou a dizer-lhe. Um dos grandes desafios que todos temos, privados e públicos, é o tornar este sector mais atractivo e de captar mais pessoas.

"Os empresários de turismo estão a recrutar com esta legislação laboral, não é com outra" Falou da
legislação laboral e da flexibilização. Essa especificidade já está a ser tomada em conta quando, por exemplo, no programa de combate à precariedade apresentado pelo Governo a taxa de penalização terá em conta a rotatividade média do sector.
Não se pode confundir precariedade com sazonalidade. Precariedade é eu fazer um contrato de seis meses e não saber o que me acontece a seguir, na sazonalidade eu já sei ao que vou. Na precariedade a maioria das pessoas estão a fazer funções que deviam ser efectivas e acabam por estar sempre com o credo na boca.

Mas a precariedade existe em todos os sectores e o turismo não é excepção.
Óbvio, claro que existe. Mas a primeira ideia é que precariedade e sazonalidade não são a mesma coisa. A segunda ideia é que há três, quatro anos, tínhamos 17% de taxa de desemprego. Isto sim, é uma praga. Porque houve uma grande recuperação económica, porque a economia mundial começou a andar melhor e a nossa também e porque o turismo ajudou, a taxa foi descendo e estamos em 8% e continua a baixar. Num momento em que o desemprego está a baixar, vai-se abrir a caixa de Pandora da legislação laboral?

Porque é que lhe chama caixa de Pandora? A ideia, tanto quanto percebo, é ter mais qualidade no emprego.
O que acho é que a legislação laboral não é algo em que se diga que se pode mexer nisto ou naquilo. Quando mexe na legislação laboral, mexe-se nela como um todo, e vai pôr-se em causa o que existe. O Governo anterior fez algumas alterações à legislação que foram extraordinariamente importantes e o que acontece é que se vamos pôr isto em causa...

Está a pensar em quê?
Na lei das indemnizações, por exemplo. Há várias. A nível de despedimentos colectivos temos uma lei com a qual os empresários podem viver e que a nível europeu é considerada bastante razoável. A nível individual, é do mais atrasado que temos.

O que é que teme?
Considero antes de mais que é um erro. Os empresários de turismo estão a recrutar com esta legislação laboral, não é com outra. Se você diz que vai mexer, mas ainda não disse em quê, o empresário fica na expectativa e é uma barreira ao recrutamento. Querem mexer na legislação laboral? Ok, mas então esperem que pare de descer o desemprego. Há um documento que o Governo nos enviou e que estamos a estudar, mas são 28 coisas para mudar. Dou-lhe exemplos de coisas que para nós são dramáticas, como o banco de horas individual, em que não faz qualquer sentido mexer-se. E para quê? Esperem. À medida que o desemprego vai descendo, os salários também vão subindo, parece-me óbvio que é um erro estar a mexer agora.

Acabar com o banco de horas individual teria um impacto muito, muito forte. E mais, achamos que o banco de horas individual não só é positivo para as empresas, como para os trabalhadores, que gostam e apreciam muito o banco de horas. Se o seu filho fizer anos na sexta e trocar com o seu colega esse dia pela segunda, porque a ele é-lhe indiferente... e eu, como empresário, que tenho de ter 16 pessoas a trabalhar, desde que as tenha também me é indiferente quem são.

A probabilidade de participarem num acordo laboral em sede de concertação social é neste momento muito diminuta?
Esta é uma das nossas linhas vermelhas, claramente. E depois há outra questão, que nos parece que é da mais elementar, mas que temos de ver no papel. Dizem-nos que o turismo tem uma especificidade própria e que isso vai ser reflectido nas alterações à lei. Tudo bem, acredito e não tenho dúvidas, mas quero vê-lo.